Urbanismo para quê?
Atuações profissionais no campo ampliado
O fato de nos apresentarmos ostensivamente como técnicos impede que sejamos percebidos como símbolos visíveis da opressão, como os militares ou a polícia. Somos mais sofisticados, mais instruídos e socialmente mais conscientes do que os generais: somos a “polícia branda”. Os urbanistas querem a “mudança social”; lidam com palavras, desenhos, programas e edificações, e não com fuzis e bombas. Em geral, porém, o tipo de “mudança social” de que se trata, reconheçam-no ou não, consiste em organizar os oprimidos dentro de um sistema incapaz de lhes assegurar uma existência humana, pacificando-os por meio das escassas concessões da assistência social, destinadas a preservar o status quo. (Goodman, 1977, p. 38, tradução nossa)
O fragmento acima, extraído do livro Después de los urbanistas, ¿qué?, de Robert Goodman (publicado originalmente, em 1971), configura-se como uma das pioneiras e mais severas críticas à atuação dos urbanistas, classificada pelo autor como antiprofissional. Na referida obra, caracterizada por um tom marcadamente incisivo, Goodman questiona a práxis tecnicista da área, evidenciando o distanciamento entre as propostas desses experts e o efetivo enfrentamento da chamada crise urbana. Observa-se que as atribuições desse campo epistêmico têm se expandido, modificado e adaptado na contemporaneidade, resultando, em não poucos casos, em limiares cada vez mais difusos. Paralelamente, as reflexões acerca da noção, da compreensão e da interpretação do conceito de urbano, bem como do papel dos atores urbanos, têm sido objeto de crescentes debates atuais. Diante desse panorama, emerge o questionamento acerca da real função e da pertinência do urbanismo e da figura do urbanista hoje.
As críticas formuladas por Goodman inserem-se em um contexto mais amplo de revisão das fronteiras disciplinares que, a partir da década de 1970, atravessou diferentes áreas do conhecimento e das práticas espaciais. Nesse período, a noção de campo ampliado, formulada por Rosalind Krauss (1979), tornou-se uma referência importante para compreender o deslocamento da produção artística em direção ao espaço, à arquitetura e à paisagem, colocando em questão categorias até então estanques. Em outro desdobramento desse debate, Hal Foster (1996) identificou, em práticas artísticas vinculadas àquele mesmo horizonte histórico, a incorporação de procedimentos e interlocuções oriundos de outros saberes, sintetizados na figura do artista como etnógrafo. No âmbito da arquitetura, Anthony Vidler (2005) observou movimento semelhante ao propor a ampliação dos limites da prática projetiva, evidenciando aproximações com a paisagem, a ecologia, a infraestrutura e outros domínios.
Tais formulações permitem ampliar, nesta sétima edição do Seminário Urbanistas e Urbanismo no Brasil (SUUB), as reflexões acerca das atuações profissionais do urbanismo em seu campo ampliado. Perguntar, hoje, “urbanismo para quê?” implica indagar não apenas quais problemas esse campo é chamado a enfrentar, mas também quem o formula, a partir de quais saberes, práticas e formas de atuação. Em um contexto marcado pela urgência climática e pela persistência das desigualdades sociais, raciais e de gênero, interessam particularmente as aproximações entre o urbanismo, as trajetórias intelectuais e as atuações profissionais de urbanistas com áreas como a antropologia, a arqueologia, a biologia, a filosofia, a história e as artes, entre outras, bem como a reflexão crítica sobre binômios historicamente estruturantes do pensamento urbanístico, como natureza e cultura, cidade e campo, rural e urbano, formal e informal.
Em 1990, no I Seminário de História Urbana, Maria Stella Bresciani entreabria uma reflexão que, nos anos seguintes, se consolidaria na conhecida formulação das “sete portas da cidade”: diferentes formas de interrogar o fenômeno urbano, cada uma delas iluminando problemas, escalas e modos distintos de compreender a cidade e o urbanismo. Passadas mais de três décadas, talvez caiba perguntar quais outras portas se tornaram urgentes de atravessar a partir das questões do presente e quais, embora já entreabertas, demandam ser revisitadas sob outras perspectivas. É nesse horizonte que o VII SUUB se organiza em torno de quatro Eixos Temáticos — “Trajetórias intelectuais”, “Ampliações e revisões críticas”, “Subjetividades e expressões citadinas” e “Mundos para além do urbano” — concebidos como disparadores de debates e reflexões que o seminário pretende fomentar.
O VII SUUB dá continuidade às edições anteriores, realizadas na UnB (2013), na IAU/USP São Carlos (2015), na UFPE (2017), na UFMG (2019), na UNIFESP + UNICAMP (2022) e na UFRGS (2025) e será realizado de forma presencial entre os dias 22 a 25 de setembro de 2027 na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e no Departamento de Ciências Exatas e da Terra da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
Eixos temáticos
1. Trajetórias Intelectuais
Propõe trazer à luz trajetórias intelectuais inéditas de urbanistas brasileiros que atuaram no país e/ou no exterior, bem como de profissionais estrangeiros com atuação no Brasil. Interessa, por conseguinte, evidenciar não apenas o estabelecimento de redes profissionais, mas, complexificar trajetórias “hegemônicas” paradigmáticas em escala nacional e continental e, sobretudo, compreender como a experiência brasileira reverberou na atuação intelectual desses agentes, configurando um processo de retroalimentação. Destarte, neste eixo serão aceitos trabalhos que tensionem trajetórias intelectuais consagradas pela historiografia, contribuam para os debates vigentes por meio da incorporação da produção de urbanistas através do viés do gênero e raça, discutam experiências teóricas e práticas não hegemônicas e experimentais, bem como analisem as articulações entre teoria, metodologia e práxis.
2. Ampliações e Revisões Críticas
Propõe uma revisão crítica e a ampliação da historiografia brasileira voltada para o urbanismo buscando revisitar, reexaminar e atualizar discursos, experiências práticas e discursos hegemônicos. Nesse sentido, serão acolhidos trabalhos que abordem, a partir de uma perspectiva histórica, a contribuição intelectual do urbanista na produção teórica, metodológica e prática do espaço urbano nacional. Ademais, serão aceitas propostas que problematizem a pertinência, os limites e o papel multifacetado desse profissional no complexo cenário contemporâneo, ampliando e tensionando de forma crítica as narrativas estabelecidas e os debates vigentes no campo.
3. Subjetividades e Expressões Citadinas
Propõe discutir como diferentes formas de narrar, apresentar e experienciar a cidade tensionam, ampliam e reconfiguram os campos de atuação dos urbanistas. Parte do entendimento de que a produção do espaço urbano não se restringe às práticas técnicas e institucionais, mas envolve também narrativas, imaginários, sensibilidades e usos cotidianos que incidem sobre as transformações materiais das cidades. Em diálogo com Michel de Certeau, o eixo reconhece os “praticantes ordinários” da cidade como agentes que também produzem o espaço urbano. Acolhe pesquisas que investiguem atuações profissionais situadas nas fronteiras entre o urbanismo e campos como a literatura, o cinema, as artes públicas, a filosofia, a música e a comunicação, contemplando tanto deslocamentos produzidos a partir do urbanismo em direção a esses campos quanto percursos que, em sentido inverso, aproximam essas práticas da reflexão e da intervenção sobre a cidade. Interessa reunir trabalhos que investiguem como essas linguagens e práticas constituem formas de conhecimento e intervenção sobre o urbano, colocando em diálogo a atuação do urbanista com outros agentes e modos de produzir, disputar e reinventar os espaços citadinos.
4. Mundos para Além do Urbano
Propõe refletir sobre atuações profissionais que deslocam o urbanismo para territórios onde categorias como cidade e campo, cidade e floresta, natureza e cultura deixam de operar como oposições estáveis. O eixo acolhe pesquisas e experiências que ampliem a compreensão das questões urbanas a partir de perspectivas cosmopolíticas, cosmopoéticas e de outros modos de habitar, conhecer e cuidar dos territórios que não aqueles das grandes cidades. Interessa reunir contribuições que evidenciem o borramento das fronteiras disciplinares, aproximando o urbanismo de campos como a antropologia, a arqueologia, a biologia, o direito, a geografia, a ecologia e áreas afins. Serão bem-vindos trabalhos que abordem atuações, levantamentos, intervenções, projetos, programas, formas de gestão, conflitos socioambientais e experiências colaborativas capazes de tensionar os limites convencionais do pensamento urbanístico. O eixo busca reunir reflexões que reconheçam a pluralidade de mundos coexistentes e contribuam para ampliar os horizontes conceituais, metodológicos e éticos da atuação profissional no campo ampliado do urbanismo.